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lauratrendywalks

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Memórias Entrelaçadas XIII

 

Até aqui nada havia de anormal nas suas vidas, ate que umas semanas depois começaram a ter uns sonhos um pouco fora do normal, bastantes reais e vivos, chegando mesmo a ser assustadores. Primeiramente não se definia as faces nem rostos e tudo parecia uma névoa constante. Comentaram entre si o mal-estar onírico mas estavam longe de descobrir que estavam tudo interligado.

Ofélia sonhava com a sua homónima pessoana. Umas vezes estava a descer o Chiado, outras a contemplar o Tejo mas o mais estranho eram os sonhos tórridos com um homem moreno de estatura normal de bigode fino. 

Entendida nas biografias do casal literário, segundo consta a paixão tinha sido somente platónica e não havia a partida provas da consumação da dita paixão. 

Os sonhos continuavam cada dia mais fortes, vivos e muito realistas. 

O que levou a uma pesquisa mais exaustiva pois embora parece um pouco agradável por um lado era certamente desagradável por outro. Descobriu uma comunidade de estudiosos que defendia exatamente o tudo o que ela sentia...

Tinha havido uma relação plena entre Ofélia e Pessoa. Segundo os seus sonhos bastante apimentada?

As novas provas vieram aliviar um pouco, pois temia que estaria a enlouquecer.

Os sonhos foram se alterando e agora aparecia rodeada de crianças. Dos sonhos eróticos passava agora para um ambiente familiar. 

Quem eram aquelas crianças? Estariam ligadas? 

 O mais estranho estava ainda para acontecer. Sem saber porque nem como foi parar lá. Ofélia deu por si a acampar no Cemitério dos Prazeres, mas especificamente na rua 1, 1 dtª túmulo nº 4371 - correspondente a Dionísia Seabra Pessoa, avó de Pessoa e onde o poeta ficou inicialmente, somente no centenário da sua morte foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos. 

Nunca antes tinha tido ataques de sonambulismo e como conseguiu chegar sem despertar atenção de ninguém! 

Se ainda restava alguma dúvida, o segundo ataque de sonambulismo foi a cereja no topo do bolo, estava no Cemitério do Alto São João, junto ao túmulo de Ofélia Queiroz Soares. 

Como tudo isto a acontecer, Ofélia consultou as amigas, pois estava no limiar da pseudo-loucura, chegou a pensar em ajuda terapêutica.

Teria que ser um Hipno terapeuta, de mentalidade aberta e especializado em casos de regressão e vidas passadas, um homólogo de Brian Weiss, conhecido autor de vários livros sobre essa temática. 

Um dia quando chega a casa, Ofélia deu de caras com o exemplar de Mário Sá Carneiro que tinha comprado na feira de Belém, no chão, ao levantar deparou – se com um compartimento escondido ou seja uma página mais grossa que outra. Com cuidado abriu e o que descobriu não foi senão:

Uma carta do seu “amigo” nadinho (Fernando Pessoa) para a sua ofelinha ( Ofélia Queiroz ), datada de 7 de Outubro de 1929.  Basicamente uma carta de namorados, cheia de promessas de amor. 

Acompanhar a epístola vinha um poema: 

 

A hora é de cinza e de fogo.

Quando penso no meu corpo longe do teu
Eu morro dentro de mim.
Saibamos senti o Fim.
Não me toques, fales, olhes...
Distrai-te de eu 'star aqui
Eu quero desfolhar te

Como ontem hoje amanha e sempre
A minha ideia de ti sempre em mim
Quero despir-te e ter-te

Este aquele e outro dia ,
Quero morrer de tanto amar-te.
Tua presença converte me num ser apaixonado
Meu esquecer-te em odiar-te longe de mim.
Com a minha alma que chora
Sob o céu indiferente,
Exterior da minha alma
Meu saber-te ali, irado
Da tua respiração, manchada

Na calma do meu corpo
Ânsia de não possuir,

Sempre mais
De me não ter mais que meu,

De me deixar esvair
Pela indiferença do tempo

Que não passo contigo meu amor ....

A carta terminava com a dedicatória. Um beijo apaixonado do teu nadinho....

Como admiradora do casal, Ofélia tinha lido bastantes textos, artigos, livros. Havia os defensores de que a paixão tinha sido somente platónica, outros que defendiam que sim, ela tinha sido consumada pelo simples facto da fidelidade de Ofélia a Pessoa ate mesmo após a sua morte. Outros afirmavam ainda que Pessoa seria homossexual. Mas o que esta carta provava era o cariz sexual da relação. Seria verdadeira? Havia análises grafológicas para confirmar a sua autenticidade. 

O que faria com a carta? Ia sem dúvida revolucionar os estudos Pessoanos.

Junto da carta havia ainda uma foto de Ofélia com um bebé ao colo. No verso estava escrito – Lídia – 1 ano. – Caldas da Rainha - 11 /09/1930. 

Qual não foi o espanto de Ofélia quando suas amigas lhe contaram experiências estranhas e semelhantes embora com outras “personas”. 

 

Joana 

O caso de Joana também ele com sonhos mas não tão intensos como os de Ofélia. Assemelhavam-se mais a um filme, uma espécie de curta - metragem.

Em parte devido aos ossos do ofício, sonhava que estava entrevista-lo, ele com aquele seu ar bonacheirão. Tão carismático e tão parisiense, não era um homem bonito nem mesmo charmoso mas havia nele algo místico e irresistível, quase que apetecia saltar para o colo e pedir que nos amasse tal e qual como na sua mítica música, com aquela que veria a ser sua esposa. A mais famosa sem dúvida. O mais estranho e em parte solidário com os restantes casos, deu-se aquando da ida de Joana a Paris, em trabalho pela sua revista “Music Lovers “. Adorava Paris, toda aquela atmosfera boémia. Sentia –se em casa sempre que vinha.

Ia entrevistar Nick Cave and the Bad Seeds, no lançamento do seu novo álbum, “ Sao Francisco Rocks” . Da última vez que o tinha entrevistado, a coisa não tinha corrido muito bem, pois tinha referido o seu conhecido dueto com Kylie Minogne. Cave detestava o êxito que a canção teve. Com tanta música representativa do seu estilo era essa que vulgarmente o associavam.

A saída da entrevista, vagueava no solo parisiense, e qual não foi o seu espanto quando deu por si a porta do Cemitério de Montparnasse . Entrou, ali como se fosse um sítio qualquer percorreu as ruas e vielas cheias de personalidades umas mais célebres que outras. Passou pela última morada de Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Susan Sontag, Paul Belmond...Viu que tudo ali seguia uma linha de padrão, tamanho e côr.No meio do cemitério, encontrou uma estátua de bronze de H. Daillion, "Anjo do Sono Eterno". E “O Beijo", de Brancusi, chamou-lhe a atenção. De repente ouviu corvos, por instantes sentia –se como se fosse uma personagem de um dos contos de Egdar Allen Poe. Mais a frente encontrou um grupo de jovens estavam a falar de Baudelaire poeta, escritor, tradutor de Edgar Allan Poe e crítico francês, autor de "Flores do Mal”. O jazigo de sua família era modesto, tinha sido primeiramente enterrado junto de sua mãe e do padrasto que segundo o grupo de jovens ele tinha um particular ódio de estimação. Mais tarde surgia o seu Memorial.

Guy de Maupassant, o fotógrafo Man Ray, e o militar Alfred Dreyfus, do "Caso Dreyfus", condenado injustamente por traição e defendido por Émile Zola no famoso texto "Eu acuso!" e de uma das suas escritoras preferidas: Marguerite Duras,foram também alvo da tertúlia cemiterial dos jovens.

Sem dar por isso, tinha chegado perto do túmulo de Serge Gaisnburg, era discreto e estava cheio de « memorabilias». Havia fotos, ursos de peluche, corações, rosas vermelhas, pequenos manuscritos, mascaras... Enfim uma serie de «souvenirs»que eram o testemunho da saudade dos seus seguidores.

Ali estava Joana, de frente como se tivesse mantido uma relação de proximidade. Tudo estava como nos seus sonhos... Como se fosse praticamente uma fotografia. 

E de repente lembrou de um pormenor, num dos seus sonhos, ela encontrava uma carta fechada a lacre tal qual como antigamente se fazia. Tinha o nome de Gainsburg no remetente e o destinatário era Birkin . 

Estranho pensou, mas a curiosidade era mais forte que a ética e educação... Olhou varias vezes procurando mais alguma informação externa. Tinha um aspeto amarelado típico. Encontrou uma data... Esta era posterior a sua morte. !!?

Como seria possível? O que fazia agora? Abria ou não? 

De repente foi informada da hora de encerramento do cemitério. Como se fosse apanhada de surpresa, enfiou a carta na sua mala, e encaminhou-se para a saída... Sentindo-se como uma criminosa... Como ia explicar uma coisa destas? A quem contar? Assim que chegasse ao hotel ia contar o facto as suas amigas.

A esta altura, Joana desconhecia, as estranhas mas semelhantes e paralelas experiências de Ofélia e Amélia.

A carta era datada de 11 de Abril de 1991. Começava por Ma chére Jane. Referia pormenores da vida em comum. Desculpava-se pelo seu mau feitio e culpa na separação e divorcio. Relembrava como se conheceram no Slogan. Do seu polémico e grande êxito. Pedia que olhasse sempre pela sua chére fille, Charlotte, esse o verdadeiro êxito de suas vidas. Apesar de separados ela continuava para ele a mais fiel amiga, seu grande amor, esse sim, porque maior que a morte somente um grande amor, não somente em termos físicos mas também espiritual. 

Ambos continuaram suas vidas mas para sempre ficou um amor para recordar, tal como Elizabeth Taylor e Richard Burton. Foram casados duas vezes e refeitas suas vidas mas continuaram ate a morte de Burton uma acesa correspondência. 

Fazia uma pequena recomendação a Birkin, para que a pequena Charlotte e Lulu, seu benjamim fosse unidos e se lembrassem do grande pai que tiveram, que mais que um poeta e musico, era um pai com grande coração que os amava o melhor que podia embora nem sempre o tivesse demonstrado. 

Deixou dois poemas dedicados a Jane e Charlotte 

Slogan

Tu esfaible tu es fourbe tu es fou
Tu es froid tu es faux tu t'en fous
- Évelyne je t'en pris Évelyne dis pas ça
Évelyne tu m'as aimé crois-moi

- Tu es vil tu es veule tu es vain
Tu es vieux tu es vide tu n'es rien
- Évelyne tu es injuste Évelyne tu as tort
Évelyne tu vois tu m'aimes encore

                  

Souviens-toi de m'oublier

- J'vais y penser
- Réfléchis comme un miroir
- J'vais voir
- Et souviens-toi de m'oublier
- J'vais essayer
- L'amnésie a le pouvoir
D'la magie noire

- Souviens-toi de m'oublier
- Et quand je pleurerai
- Fais un nœud à ton mouchoir
Pour ta mémoire
Et souviens-toi de m'oublier
- J'vais y penser
- Les flash-back c'est comme voir
Des films noirs

- Souviens-toi de m'oublier
- Ouais j'vais y penser
- Réfléchis comme un miroir
- J'vais voir
- Et souviens-toi de m'oublier
- J'vais essayer
- Tu sais bien qu'il va falloir
Ne plus nous voir

Souviens-toi de m'oublier
Mais souviens-toi

Era uma criminosa, roubava cartas de túmulos de celebridades... O que lhe teria dado para isso. ... Resolveu guardar a carta, amanhã resolvia o que fazer com ela. 

A sua avó costumava dizer que o travesseiro era o melhor conselheiro.

Joana nessa noite teve mais um daqueles sonhos. Sonhava com Gainsburg. Estavam os dois na maior das conversas e no meio disto: Ele chegou – se como não quer a coisa e lhe disse que se podia fazer um favor. Ela concordou obviamente. Então qual não foi o seu espanto quando lhe pediu que lhe entregasse a carta a sua devida destinatária. Que não tivesse qualquer remorso, pois fora ele que a guiara ate ela... Ela era a perfeita mensageira, tentara já há algum tempo mas sem grande êxito.

Nisto, Joana acorda esbaforida, com o coração a bater como se tivesse corrido a maratona e completamente alucinada com toda aquela experiência. De repente toca a campainha, eram os seus colegas, olhou para o relógio. Estava atrasada... Tinha um avião para apanhar. Quando chegasse a Lisboa pediria opinião as suas mais fieis conselheiras... 

Amelia 

Ofélia e Joana marcaram uma intervenção amigável. Era o que chamavam quando alguma tinha um problema de difícil resolução. 

Amélia tinha algo para contar. 

Havia dias que andava a sonhar com um incêndio que metia crianças, palácios, criadagem... Um ambiente de realeza. Depois passaram a ser sobre joias como a pregadeira que tinha comprado na feira de Belém mas também diademas e colares de pérolas e o mais curioso foi a presença dos binóculos de ópera que tinha igualmente comprado.

Tudo de se tornou mais claro quando Amelia numa sessão de zapping deparou- se com um documentário sobre as joias da casa de Bragança. O que lhe despertou mais curiosidade foi as semelhanças com os sonhos e objetos comprados na dita feira.

No documentário ficou a saber que a pregadeira fazia conjunto com um «collier de chien» da casa Cartier dada pela Rainha Maria Pia a D. Amélia, sua nora, Rainha consorte de D.Carlos. 

Também havia a referência de um colar de pérolas que D.Carlos tinha dado a sua esposa aquando do enlace. Colar este presente em muitas das fotos da nossa derradeira rainha. Amélia ficou algo perplexa com todas aquelas coincidências oníricas. Os sonhos continuaram e os seguintes seriam mais curiosos. Sonhava que estava no Palácio da Pena, no espaço reservado ao Atelier do Rei D.Carlos .

Havia uma secretária daquelas de origem indo – europeia com um sem número de gavetas e esconderijos. Ao lado estava o cavalete e com ainda os pinceis e ao lado a caixinha de tintas de uma das grandes paixões comum que unia os nossos derradeiros monarcas. Nessa secretaria havia uma carta que provavam uma troca de crianças. A criança era, a infanta Maria Ana de Bragança. Infanta dada como morta pouco tempo depois devido a problemas de um parto prematuro, consequente do incêndio no Palácio de Vila Viçosa. 

As cartas estavam dirigidas a uma outra infanta D. Eulália de Espanha, amiga cúmplice de D.Carlos. Estes partilhavam o segredo, da troca de crianças devido ao monarca ser vítima de chantagem de uma ex – amante que tivera um filho e este morrera e ela o culpara por tal e gerou um plano de vingança. 

Primeiramente, o incêndio no Palácio, mas não foi bem-sucedido pois o Príncipe Herdeiro Luís Filipe foi salvo tendo apenas ficado umas pequenas queimaduras que depressa sararam. O nascimento prematuro do novo bebé foi a nova chance de vingança desta bem-sucedida. 

D.Carlos guardou segredo durante toda a vida para com D. Amélia. Que ficou devastada com a perda da sua menina... O destino havia de pregar mais uns quantos desgosto a mãe reinante. 

Ate a sua morte, o rei enviara um montante para a pequena. O seu nome de batismo foi mantido em termos parciais: Maria Ana Bragança Gonçalves. Filha de Luísa Gonçalves e pai desconhecido.

O que fazer com toda esta informação? Seria verdade? Seria legítimo? Qual teria sido o motivo da chantagem que impediu o rei de contar a verdade a sua rainha?